quinta-feira, 17 de julho de 2014

De dentro

Comecei pelo lado esquerdo. Abri duas das portas, correspondente à parte chamada "lado das roupas de sair". Na ponta esquerda desse lado, saias e vestidos; algumas dobradas duas vezes; outras, três vezes (duas no comprimento, e uma vez na largura, para caber no território bem delimitado de uma mão aberta). Na ponta direita desse lado, mais próximo do centro, calças jeans e shorts, camisas de botão e algumas blusas esparsas; tudo devidamente classificado e separado pelas duas cores, alegre e triste. Demorei um dia para chegar ao outro lado, pensando se havia porquê mexer ali. Quando então mergulhei as mãos na massa de tecidos, puxando-a contra mim, caí no chão junto com ela. Passei então à checagem. Cheirei uma a uma, o que me causou uma momentânea alergia - era uma reação do organismo ao inebriamento de um odor estranho a ele. O mofo tomava conta de muitas peças, então descartei algumas, e outras, levei para tomar sol. No final da tarde, apanhei-as. Uma a uma, separei aquelas que não tinham uso, esquecidas sem pretensão de dar uma volta na praça, daquelas poucas que serviam para qualquer ocasião. Estas eu pus no saco para doação, já que poderiam servir a qualquer um. As esquecidas... pendurei nos cabides, à altura dos olhos, mais perto do coração.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

esquizo

o mero cupim
correndo a antiguidade da cômoda
parecia um grito de socorro, de Evans

Cigana das mais previsíveis leituras
E você vê mim um quê de mistério
Suplico que vá além
Da sedução aparente
Que aplaque o jogo dos começos
Véus e olhares oblíquos
Dançando freneticamente. alguma força me possui
Dona de mim, te nego, te rogo
Que dissipe a imagem
Há tanto mais que isso
Alguma onda percorre a corrente sanguínea
Fazendo acesso pela escuta
Não se sabe, voz ou ruído, ou uivo, ou grito primitivo
Insistentemente assignificante
Me desatando de mim...

segunda-feira, 30 de junho de 2014

DELETE

Foto que não mais se rasga
Somente se apaga, apaga
Voz que esvanecia olvidada
Hoje se grava, se não grava
Se grava? Se apaga, apaga
Palavra, projeto, promessa quebrada
Se escreve, se apaga, apaga
Tudo o mais que se não descarta
Se descarta
Se não se esquece - ou se esquece, se disfarça
Se tem se perde, se apaga, apaga
Tal como a lama
Ou mais, o rastro da lesma
Mais fluido que o rio
Assim (se) foi o amor
Escorregadio

quinta-feira, 27 de março de 2014

desejo de manchar a coerência, a concisão e a clareza
do contrato social em que figura minha assinatura
de revelar toda a esquisitice de gestos e olhares que não se contêm
de ir além dessas superfícies em que não se espelha
violar a correspondência, romper o lacre, rasgar o selo
procurar o Outro que não seja mais-um-que-não-sou-eu
perdendo-me no caminho sem saber que me procurava
Deixo ficar esse desejo, que é a vontade sem objeto (direto ou indireto)

domingo, 23 de março de 2014

Perdoa se
O coração acelera
Não pela pessoa.
Pela circunstância

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Acho que meu sentimento por você não cabe em palavras. Desfaz o clichê. Ou talvez as palavras é que sejam maiores, já que sempre fui apaixonada por elas. O que sei ao certo é que eles não tem o mesmo tamanho. O meu sentimento e as palavras.

Pensei um dia fazer uma declaração de amor, mas o cinza dos balcões de escritórios e de gabinetes me fez querer esquecer da palavra. Declaração, hoje, me parece algo tão formal e solene, tão dentro do adequado e tão do lado de fora.

Aprendi a conviver com a pergunta? a dúvida? uma incerteza dentro do íntimo que não conheço e que ninguém conhece.

Quanto ao sentimento, penso que não preciso prestar contas a ninguém. Me desculpe por isso, não por isso.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Esquece tudo que eu quis te dizer, e se concentra nessa pulsação. Não sei dizer adeus. Por isso te olho como se congelassem a câmera. Mas também não sei se posso seguir em frente. Alucino que progrido, subo o degrau, escalo a montanha - ou não seria isso, faço um traslado reto rumo ao horizonte enquanto sua lembrança me contempla, ou contempla aquela figura que se desmancha na distância... só mais um ponto colorido, um traço de vida tornada impossível pela quilometragem


terça-feira, 5 de novembro de 2013

Ritimia

Licença Creative Commons
O trabalho Não sem nós de Jucely Regis foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Brasil.

Tenho agora um maldito susto
Permanente dentro do peito
Grudado no coração
Descontínuo ao extremo das mãos
Me descompassam as horas
Em cada linha curva dessas imagens confusas
Velozes como acidentes,
Lançadas em sobressalto

Premedita no prontuário
Prognostico o porvir
De uma ritimia elegíaca|