A rua toda era aquele pinheiro, visto ao longe, de grande altura e majestade verde.
Era ainda mais grandioso de perto, pois quem vê com o olhar próximo, logo especula, às suas vistas, tamanho maior ao objeto contemplado. Em todos os galhos recheados daquele verde, ele me contava dos seus antigos natais, dos enfeites que colocaram nele, dos vinhos derramados nele por acidente nos dias 24/25 de dezembro durante um brinde animado, dos anos que se passaram enquanto ele crescia; dessa maneira fez com que eu me perdesse numa estranha sensação de saudade.
Mas, adentrando na casa das tantas lembranças (morada do pinheiro que não caberia em uma casa, pois para mim era senhor daquela rua), avistei um lírio - tão comum, tão ínfimo - que era quase impercepitível diante da grandeza daquele pinheiro. Agachei-me, com o respeito que nem sempre se tem ao lidar com ser tão singelo, em seguida senti o cheiro da pureza vista ou não na cor branca e na quase fraqueza daquela flor.
Eu soube do que me veio sobre a história do antes visto pinheiro: não foi ele que me contou, todas as lembranças que não eram minhas me vieram pelo meu olhar, este moldou a história da forma mais bela. Pois o pinheiro, embora fosse robusto e grandioso, nada disse, era inodoro e espinhento; se fosse palavra seria daquelas com grandes ornamentos, que chamam a atenção para algo grandioso, mas não cheiram bem. O lírio era que se mostrava na pureza e na sua simplicidade e que me disse tudo quanto era pouco o necessário, como o valor da sua fragrância; se fosse palavra seria das mais aveludadas e doces que soam como música e que chegam aos ouvidos como o movimento das marolas.
As palavras são como fragrâncias exaladas.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Di(í)vida
A culpa não é sua
A culpa não é minha,
O erro foi nosso
E o erro não existe
As ações só se fazem
O pensamento cava
Bem mais fundo na falta
Do apreço
A intenção é que mata
Antes da censura
O que machuca
O respeito
O cuidado preza o acerto
E o acerto se perde
Pois, entre o certo,
O errado se divide
E nessa diferença
Talvez não haja divisão.
A culpa não é minha,
O erro foi nosso
E o erro não existe
As ações só se fazem
O pensamento cava
Bem mais fundo na falta
Do apreço
A intenção é que mata
Antes da censura
O que machuca
O respeito
O cuidado preza o acerto
E o acerto se perde
Pois, entre o certo,
O errado se divide
E nessa diferença
Talvez não haja divisão.
Ou
Ordene
Que eu te deixe
Que eu te dê atenção
Implore
Que eu volte
Que eu suma da sua vida
Calcule
O que diz e o seu peso
O que te falta de juízo
Reclame
Do que falta
Da falta que não fez
Duvide
Da minha honestidade
Da minha capacidade de mentir
Zombe
Das minhas metonímias
Das suas hipérboles
Me abrace
E me beije em seguida
Me diga adeus de uma vez
Que eu te deixe
Que eu te dê atenção
Implore
Que eu volte
Que eu suma da sua vida
Calcule
O que diz e o seu peso
O que te falta de juízo
Reclame
Do que falta
Da falta que não fez
Duvide
Da minha honestidade
Da minha capacidade de mentir
Zombe
Das minhas metonímias
Das suas hipérboles
Me abrace
E me beije em seguida
Me diga adeus de uma vez
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Paródia a Pablo
Depois de tudo sentirei
como se fosse sempre infante
como se de tanto respirar
sem que te visse nem abandonasses
estivesses momentaneamente
respirando perto de mil.
Perto de mim com teus hálitos
teu colorido e tua risada
como estão juntos os asceses
nas lições militares
e duas comarcas se distinguem
e há um rio perto de um giz
e crescem juntos dois nãos.
Perto de ti é perto demais
e longe de tudo é tua ciência
e é cor de argila a rua
na noite do maremoto
quando no terror do erro
juntam-se todas as matizes
e ouve-se soar o invencio
com a música do pranto.
O medo é também um ninho
e entre suas pedras arrojadas
pode marchar com quatro perdas
e quatro lábios, a rasura.
Porque sem sair do que sente
que é um anel quebrantado
tocamos a areia de antes
e no mar ensina o furor
um arrebatamento repelido.
como se fosse sempre infante
como se de tanto respirar
sem que te visse nem abandonasses
estivesses momentaneamente
respirando perto de mil.
Perto de mim com teus hálitos
teu colorido e tua risada
como estão juntos os asceses
nas lições militares
e duas comarcas se distinguem
e há um rio perto de um giz
e crescem juntos dois nãos.
Perto de ti é perto demais
e longe de tudo é tua ciência
e é cor de argila a rua
na noite do maremoto
quando no terror do erro
juntam-se todas as matizes
e ouve-se soar o invencio
com a música do pranto.
O medo é também um ninho
e entre suas pedras arrojadas
pode marchar com quatro perdas
e quatro lábios, a rasura.
Porque sem sair do que sente
que é um anel quebrantado
tocamos a areia de antes
e no mar ensina o furor
um arrebatamento repelido.
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Parece parecer
O que pareceu?
Qual foi o seu parecer?
Julgou o que parecia ser sinal
E foi meu aparecimento pontual
De quem diz: Você é parecido
[Está fingindo ter desaparecido?]
Com aquele pra quem meu peito transparece.
Parou no meio do caminho
Partiu, achou melhor estar sozinho
Portava na fuga a minha chave
Para onde eu vou num enclave?
Qual foi o seu parecer?
Julgou o que parecia ser sinal
E foi meu aparecimento pontual
De quem diz: Você é parecido
[Está fingindo ter desaparecido?]
Com aquele pra quem meu peito transparece.
Parou no meio do caminho
Partiu, achou melhor estar sozinho
Portava na fuga a minha chave
Para onde eu vou num enclave?
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