quinta-feira, 30 de outubro de 2014

quarenta minutos abrindo a boca
seguidos sem ponto sem vírgula não te deixando falar as palavras misturadas sentimentos as leituras os amigos os desconhecidos as derrotas, os acidentes, o que se lia o que eu lia no que eu sentia que lia sentindo
Você respondeu: "Tu estás louca!"
Eu disse eu tenho medo. da palavra amor

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Poção

Ontem falei com mamãe sobre amor
e fiquei bem mais certa
de que a coisa é incerta

Um dia um senhor distinto disse que amor é absoluto
Tão certo de si, um sentimento soldado
equipado para o combate e prestes a derrotar
qualquer incerteza, qualquer inquietude íntima
Que o amor é porto-seguro, canto em que o ser aporta
O amor é do porto, diria

Mamãe me falou que isso é coisa que não acaba
Eu acho é que recomeça
Mesmo se não termina
- Raiva ou rima
É tanto maior quanto mais vira

Estou longe do porto
e meu amor é maré
Oscila. Ainda é água

Absoluto?
(= Erro de interpretação, o amor é uma bebida.
Lembra daquela cachaça que tomamos juntos?)

sábado, 18 de outubro de 2014

Talento de pintor

Pintando mulheres
Seu talento enquadra
Todas as formas de estar entediada
Minha pupila
se retraiu
Queria ser bicho
Sou inofensiva
Queria ser bicho
Não sou
Sou inofensiva
Minha pupila
se retraiu
Fui contida
Estou contida
Queria ser bicho
Não sou
Sou inofensiva
Queria ser fera
Atrás do mato
Caçar a presa
Não posso
Queria ser bicho
Não sou
Queria ser livre

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Ou o contrário

Que coisa esquisita Seu corpo seguindo em frente Sua cabeça dizendo "fica!" Meu corpo dizendo "fica" Minha cabeça gritando: não! O espírito fugindo de medo Meu corpo fugindo de medo Minha cabeça buscando a prisão A Coisa escapando à vista Minha cabeça buscando o voo Meu corpo enlaçado atado Minha cabeça ordenando o passo Meu corpo inútil, estático Meu corpo dizendo adeus Saí pela porta sem as pernas Meu corpo dizendo até logo

domingo, 12 de outubro de 2014

Intenção

Quando você diz
Que eu desafino, amor
Quero te dar como resposta
Aquela música do Tom Jobim
Que eu esqueci a letra

Projetos

Primeiro: uma viagem à Saquarema, RJ, acompanhada de minha mãe e mais algum agregado qualquer. Uma viagem empreendida com objetivos bem claros: rever família e colegas da escola e do bairro, rever a escola, rever a praia e a igreja e o cemitério, rever as professoras da escola, rever a vizinhança, provar uma das frutas dos pés-de-alguma-coisa do quintal da antiga casa, os quais se não morreram devem produzir às dezenas. Dentro do objetivo de rever a praia: rever a ressaca do mar e os estragos causados pela invasão da água na pista e nas casas à beira-mar, voltar a "pegar jacaré", sentir cheiro de maresia na transição da madrugada para a manhã. Antes do objetivo de provar as frutas: verificar se o bairro ainda existe, verificar se ainda existe a casa, se não virou condomínio residencial de luxo, se tenho permissão para entrar, se o endereço está correto: R. dos Funcionários, nº 09. Quanto ao objetivo de rever a escola: saber se a cozinheira Rosângela ainda é viva e se ainda faz aquele belo feijão-arroz-ovocozido e aquela carne seca com abóbora, verificar se ampliaram o espaço dessa segunda casa, se derrubaram as árvores onde me escondia, se substituíram-nas por eucaliptos, ou se limparam tudo, se os brinquedos, que com certeza enferrujaram, foram trocados por outros, e quais, se esconderam a tampa da fossa que (antes exposta) era onde colocávamos as doações do pique-nique diário. Sobre rever os vizinhos:  os cachorros morreram de velhos, D. Nancy está morta, Seu Costinha também, D. Dolores se afastou da política há anos, seus parentes me são estranhos, e acho que nem tenho quem visitar.
Previsão de decolagem: 2005. Atualização da data: fevereiro ou janeiro de 2016, viagem de miniférias após defesa da dissertação de mestrado.

Segundo: uma viagem sozinha, sem destino e mais ou menos sem data.
Meio de transporte: navio         Previsão de aportagem: o quanto o estômago aguentar.

Terceiro: cumprir o projeto de mestrado dentro do limite de erros.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Literária

Na ânsia de buscar o outro, o perigo
De se perder de si
Mais que isso, o perigo de se perder
Ou talvez mais, o perigo de perder toda a noção
Quem imaginaria
Uma obsessão
Um transtorno
Uma duplicação bivitelina
Estou caindo na armadilha
Perdidamente apaixonada por outro
Corrijo:
Loucamente apaixonada pelo outro.

Você, meu livro

Estou tão tentada de te deixar entregue à espera!
Você é meu livro; te largo no sofá, enquanto preparo o café
Te ponho no meu colo enquanto petisco bolachas
Te protejo, te embalo
Te envolvo nos meus braços
Te saboreio, te faço de companhia
Te escancaro minha solidão
Te subverto, te toco pouco a pouco, te redescubro

Te dobro, te driblo
Te esqueço a história. Vivo.