sábado, 25 de setembro de 2010

Maraesmo

Cada soluço do mar é um movimento com-passado de fôlegos tomados de assalto.
Cada salto da onda é um quebra-mar no seu meio.
Cada meio se faz de um dos dois: mar e terra.
Cada vez tem 2 1/2: um vai e um vem incessantes.

O não é uma fuga

Que haja bastante tempo para o amor. E já que para ele não há tempo bastante, que dedique-se então muito tempo. E que assim não sobre tempo para o medo e para a fuga, pois o amor não se faz de "se" nem de "não", mas aceita e se afirma em si mesmo. E que a ausência não dure mais de um dia e (se durar mais do que isso) que dê gosto a solidão, para que nos acostumemos à sua presença acre e a limitemos aos nossos monólogos existenciais vitais. E que compreensão não seja subordinação e que aceitação não seja carregar nas costas o erro do outro, mas esquecer-se da existência de qualquer peso; os amantes não devem querer carregar os amados às costas, e longe do bom sentimento estaria acomodar-se às costas do amor, sendo assim caminharão lado a lado acompanhando o passo. Pois o bom companheiro não sobrepuja nem subalterna (embora o amor trate de dar-nos lugares de glória e de em outras horas de parecer nos negar um lugar).

E que cada letra da minha condição se perca como a nota desafinada da criança que toca a "Asa branca" na sua flautinha de plástico.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Implosão

Implosão: vem de dentro para fora, sem danos ao exterior e tem hora marcada. Controlada até que se destrói.
Ah, eu confesso, que inveja dos intensos! Que tem e vivem... sabem o que tiveram, um pouco antes de perderem, mas saberão que perda lamentar. Bem pior é não conhecer a perda e desconfiar do que não se teve.
Não me falta nada?
Cadê as minhas grandes perdas? Talvez junto aos meus grandes ganhos. E a morte eu não vi de perto, é uma perd'or que não conheço... Não além da morte da tarde pela escuridão prateada no céu azul-escuro-quase-negro, ou do mergulho suicida da lua no mar compassado de fôlegos tomados de assalto. Entretanto não me lembro de ter chorado essas mortes, aliás, aquilo pelo que ou aqueles pelos quais eu já chorei ainda hão de estar vivos.
Ah, os inconsequentes, que tem lágrimas inflamáveis como os seus sorrisos e veias à mostra! Será que eu deveria assim ser? Se parei agora pra pensar, é prova que eu somente não sei como.
Vir com o fogo e o combustível inflamável...
Bom (para o bem) ou mau (para o mal) eu nunca fui explosão.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Fora do círculo

Mesinha redonda.
Três cadeiras.
Garrafas meio vazias.
Copos espumados.
Jogo de futebol;
Filme de luta;
Atriz pornô;
Carro do ano;
Cigarro ruim.

Cadeira afastada:
Cabelo comprido,
Testa franzida,
Mente confusa,
Blusa colada,
Braços cruzados,
Pernas cruzadas,
Pé inquieto,
(Saia justa).

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Bobo da corte

Minha paixão é sorrir
Minha paixão é cantar
Minha paixão é sentir
Minha paixão é despertar
E por que não dizer?
Minha paixão é sofrer

Minha paixão é crescer
Minha paixão é ser imatura
Minha paixão é aprender
Minha paixão é não ter censura
E por que não dizer?
Minha paixão é ser burra

Minha paixão é conversar
Minha paixão é construir
Minha paixão é observar
Minha paixão não há de convir
E por que não falar?
Minha paixão é te olhar

Minha paixão é ter amor
Minha paixão é o amor pra dar
Paixão pra mim, pra você e pro senhor
Ter do que se encantar
Sem obrigação de se expor

Minha paixão é a pureza
O bem e o mal também
Minha paixão é a dureza
Do dia, da vida e o que mais tem
Minha paixão é gostar
Não só do que os convém

Minha paixão é ser grata
Pela torcida a favor ou contra
Pois aquilo que não me mata
Na minha evolução se encontra

Minha paixão é um bobo da corte
Prega peças por aí
Gentil, se apresenta:
Meu nome é viver, e você?
Ai daquele que não responder de bom-humor!

Murchado

Ocasiões lindas vividas
Hoje, apenas lembranças
Das emoções sentidas
Nenhuma saudade me alcança.

O seu olhar meigo
Que não mais aparece
Raramento chego a vê-lo
Pois forçoso me parece

De antes que era amor
Em simplicidade de flor
Hoje não mais tem cor
E espinhos você cultiva
Falhada a sua tentativa
De ferir-me com algo sem vida

Afastei-me, não sei, talvez
Para que eu tivesse clareza
Do que hoje beira a escassez
O que era antes correnteza
É gota que cai de vez... em vez.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Diz uma faceta humana

Mesquinha, incapaz de dar sem receber, dedicar-se sem ter retorno. Talvez seja um sinal da miséria, ser incapaz de atos de bondade que retornem nada, talvez se os fizer demais, esta bondade faça falta, pois não está em fartura. Aqueles que se dedicam ao bem sem olhar a quem... com certeza também esperam algo, nem que seja reconhecimento, olhar de notoriedade. Admiração é um ponto importante, deve ser bom sentir-se melhor do que os outros, mais humano - ou menos - em relação a todos. Logo, condenáveis os que não dizem "Obrigado!" ao receber uma boa ação, desrespeitando os 'bons modos' (tipo de de mecanização do como-ser-e-como-agir). Que gafe não reconhecer um tipo de fato tão extraordinário!

domingo, 25 de outubro de 2009

Eu queria uma canção para o nada. Para o nada na minha cabeça, para o nada no meu coração, para o nada em que me ocupo e dedico minutos longos de cada dia. Para tanta coisa que acontece a toda hora, com todo mundo, e chegando à mim se resume em nada.
Eu queria uma canção que falasse da cor no trajeto pra casa, da luz quase branca de dentro do ônibus, difusa e sem intensidade, misturando-se com a luz amarelada e e indecisa dos postes, que iluminam a vida no tráfego e às vezes a morte também.
Eu queria uma canção que lembrasse as vezes em que falam ininterruptamente e até gritam e gargalham próximo de mim sem que eu entenda uma só palavra, dos momentos em que minha mente se transporta para um lugar distante, próximo apenas das minhas inquietações, dos meus dilemas, dos planos incompletos. Nesses momentos de leve transe, quando um: "Ei, o que foi?" interrompe, sempre recebe a mesma resposta: "Nada." Verdadeiramente eu só estava entretida no meu conflituoso julgamento interno.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Vasta autoquestão

Mas é tão pouco espaço para que eu me perca,

Tão vastos pensamentos para eu me achar,

Tantas possibilidades para se pensar

Antes de acontecerem.

São lembranças próprias para que eu esqueça,

Em confusão inocente de criança má,

Réu por fazer planos sem executar.

Se me obedecerem...


Eu terei o controle e perderei:

Pisarei firme, em chão estéril,

Não flutuarei com gosto etéreo,

Como portando de incerteza.

O questionamento abandonarei,

A não unanimidade e o mistério

Dos meus sins e nãos num só planisfério...


Afasto a dúvida da frieza.

domingo, 31 de maio de 2009

Descobrir rótulos


Sou ... nem sempre, nunca totalmente.

Não há quem seja sempre justo,somos vulneráveis a fazer julgamentos errados. Não quem seja sempre honesto, existe também a vulnerabilidade de se corromper, há quem se corrompa em pequenos atos, há quem se entregue a tal "atividade".

Ninguém é totalmente malicioso, nem totalmente inocente, variamos em porções. Não há quem seja totalmente sincero, o simples ato de omitir pode se tornar hipocrisia; posto isso, também não há quem seja sempre fingido.

Somos assim dispostos para o "bem" ou para o "mal". Nossa graça está na nossa relatividade, conquanto essa graça se perca ao se falar em totalmente, muitos fazem isso.


Os ingênuos se limitam no sempre e no absoluto, impondo parâmetros, regras e rótulos, e fingem os odiar.