sexta-feira, 2 de maio de 2008



Convencem,seduzem, atraem, entrelaçam, explicam, constroem, exaltam,humilham,consolam, demonstram, encobrem, aprisionam, confortam, bestificam, embaraçam, esclarecem, iludem. Concretizações do pensamento, impulsos do sentimento, totalmente calculadas e medidas, ou saltos de opinião inconscientes.Façanha então se alguém consegue ser senhor de suas palavras e não escravo delas.Um “bom mau- caráter” precisa ter a inteligência necessária para lidar com as palavras, seja pra enganar as pessoas ou acobertar o que faz, por meio delas.Palavra ao vento, palavra repetida. Aquele que a profere sem coerência, passa por louco, incapaz de construir um raciocínio lógico. Tem que ver do outro lado, este “louco” pode estar conseguindo enganar a tirana palavra, usando dela, o que é inevitável, mas guardando para si o que não quer descrever. Porém vamos sendo seus escravos. Frase ou oração, substantivo e adjetivo, advérbio e verbo, e um monte de explicações pra nos complicar, letra por letra, ao pé da letra. Já estruturada na lógica, tenta explicar até o inexplicável, e sem pedir licença está em tudo: no que pensamos, no que dizemos... Até no ato de respirar, pois mesmo isso tem nome. Egocêntrica, descrevendo- a usamos dela. Tem a ousadia de dar nome até aos sentimentos.“Se você ama alguém fale, corações podem ser partidos por palavras que nunca foram ditas.”Frase que li inúmeras vezes numa embalagem de bombom. Isso não reduz o seu valor e sabedoria.O que os olhos não vêem o coração não sente; e o que os ouvidos não escutam pode não ser descoberto. Será que não é demais querer que uma pessoa adivinhe o que você está pensando ou o que você sente? Fazer o que se somos seres inseguros? A cada instante nos apoiamos em algo, muitas vezes esse algo pode ser uma palavra de conforto, de esclarecimento. Conforto em meio a tanto estresse; esclarecimento pra evitar uma confusão... Se usando de palavras ainda geramos situações confusas em meio a opiniões diferentes de lados opostos, imagine então sem tentar explicar, sem colocar em “pratos limpos”? Só mesmo dizendo para dar certeza de algo.A palavra é abstrata e, insensivelmente, aquilo que concretiza os pensamentos, suposições, impressões; inescrupulosamente diminui aquilo que se sente. Enquanto é só você e você, não há jeito mais claro de se entender algo do que sentindo, mas é na hora de descrever o que você sentiu que a intensidade se esconde, e, quase que impossivelmente transpirará a grandeza de uma sensação no ato do dizer.Mas os julgados indescritíveis sensações e sentimentos acabam por ceder ao uso de palavras e nós a sua presença ao ponto que somos racionais, quando tentamos entender ou queremos fazer com que compreendam, ao existir e ser, e ao ponto que se fala se envolve e entrelaça-se nessa montanha de letras formadoras de palavras. Não podemos negá-las, estão aqui, sempre presentes, donas de nós e quem fala seu escravo. Mas isso não é loucura? Afinal fomos nós que as criamos ou não fomos? Criadores escravos da criatura. Então antes sermos senhores de nosso silêncio, mas mesmo assim o silêncio também será submetido às palavras, ao ponto que o fato de estar calado também seja descrito nessas tais.Pois então, tão imensa é a presença das palavras e a necessidade de usar delas, que se deve pensar bem melhor antes de usar a expressão “Não sei descrever em palavras.” Enorme euforia seria a de experimentar de sentimentos sem nome.

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